Jung e a função transcendente

o

A dimensão consciente e inconsciente são complementares.  A vida civilizada, contudo, hipervaloriza a segunda em detrimento da primeira. O que faz com que ocorram aparições abruptas do inconsciente em circunstâncias constrangedoras, como quando durante um discurso, quando mais se precisa que a fala ocorra de modo coeso e coerente surgem atos falhos. A função transcendente é a colaboração entre as duas dimensões, é quando invés de provocar constrangimento ou censura as duas dimensões produzem integridade, coesão e coerência. Exercendo a complementaridade que lhes é própria. Esta complementaridade tem por razão:

  • Os conteúdos do inconsciente possuem um valor liminar, de sorte que todos os elementos por demais débeis permanecem no inconsciente.
  • A consciência, devido suas funções dirigidas, exerce uma inibição (chamada por Freud de censura) sobre todo material incompatível com as funções dirigidas o que faz com que esse material vá para o inconsciente.
  • A consciência é um processo momentâneo de adaptação ao passo que o inconsciente contém todo o material esquecido do passado individual como também todos os traços funcionais herdados da estrutura do espírito humano.
  • O inconsciente contém todas as combinações da fantasia que por ventura podem vir a entrar no campo luminoso da consciência após ultrapassar a intensidade liminar.

O viver civilizado impõe uma atividade concentrada e dirigida da consciência que impõe persistência, intencionalidade e regularidade o que leva necessariamente a uma unilateralidade do pensamento. É possível, unir estas duas dimensões, a consciente dirigida e o inconsciente. Os sonhos pareceriam caminho óbvio para tal intuito, mas o manejo interpretativo dos mesmos requer uma condição do sonhador por demais exigente, que nem mesmo analistas experientes conseguem realizar as vezes. Já os atos falhos são por demais espaçados. Assim Jung propõe que o elo entre as áreas do psiquismo seja as “fantasias espontâneas”.

Se esta unilateralidade não for contradita as irrupções inconscientes tendem a produzir circunstâncias desagradáveis. Nosso modelo civilizatório possui um limiar da consciência normal (sic) pouco deslocável comparado aos povos primitivos, como também aos neuróticos e principalmente psicóticos. Assim, os processos primários possuem pouco ou nenhum espaço de manifestação espontânea. Tendo que se erguer contra a unilateralidade do pensamento, que lhe impõe um afastamento forçado, por meio de atos falhos, sonhos etc.

A imaginação ativa realiza a função transcendente por meio de um método construtivo no qual o significado do ato psíquico não é mais importante que a finalidade deste mesmo ato. Jung chama de método construtivo este modelo no qual o ato psíquico encerra um símbolo que remete a um significado e simultaneamente possui uma finalidade a ser explorada. Jung chama de método redutivo, que corresponde à psicanálise, aquele que se fixa na significação.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s