As reduções fenomenológicas

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            A fenomenologia tenta romper a dicotomia epistemológica milenar entre sujeito e objeto substituindo a atenção a ambos pela ênfase no fenômeno que é precisamente o encontro necessário entre sujeito e objeto na medida em que só existe, na antológica formulação fenomenológica, consciência de objeto e só existe objeto para uma consciência .

 Para tanto se propõe a duas tarefas a primeira é por meio da intuição de essência, que são possibilidades puras, elucidar a essência das formas de pensamento para determinar as condições de inteligibilidade. Uma segunda tarefa seria fazer a analise intencional. De acordo com o princípio da intencionalidade a consciência é sempre consciência de algo. Por sua vez qualquer objeto só pode ser definido em relação à consciência. Dito de outro modo a questão “O que é o que é”, que dá conta do fenômeno, remete a outra questão que é “O que se quer dizer”. Essa se refere a intenção. Todo objeto é assim objeto-percebido, objeto-pensado. A análise intencional é assim a análise do encontro entre objeto e consciência que não podem ser separados. Assim se estabelece o campo fenomenológico que é o da correlação entre consciência e objeto. Pois, a consciência contém muito mais que a si própria.

A análise intencional conduz a redução fenomenológica, ou colocação do mundo entre parênteses (epoché).  Husserl diz que há uma atitude natural que coincide com o senso comum e que deve ser colocada em suspenso. Ela consiste em pensar que o sujeito está no mundo como em algo que o contém ou como uma coisa entre outras coisas. A vida psíquica de acordo com essa atitude natural seria uma realidade do mundo entre outras. A psicologia estaria para a consciência como a astronomia para as estrelas. Ao contrário dessa atitude Husserl propõe a atitude fenomenológica onde a consciência deixa de ser uma parte do mundo, e o mundo que passa a ser a partir de sua percepção pela consciência. A consciência passa a ser vista como o local de desdobramento do mundo no campo original da intencionalidade.

 Por ter como via de acesso ao saber o fenômeno do qual o sujeito participa pela  consciência, que para os críticos do método fenomenólogo é necessariamente subjetiva, a fenomenologia é recorrentemente criticada por incorrer em solipsismo. Ainda segundo os críticos esse seria um limite intransponível da fenomenologia já que o acesso e simultaneamente os possíveis critérios de verificabilidade e legitimidade se dão no mesmo âmbito, o do fenômeno.  Cuja percepção é singular o que impossibilitaria um conhecimento verdadeiro e universal almejado pelos fenomenólogos.

De acordo com Triviños a fenomenologia sendo “um enfoque teórico dessa natureza pouco pode alcançar de proveitoso quando se está visando os graves problemas de sobrevivência dos habitantes dos países do Terceiro Mundo.” (Triviños, 1992). Ainda assim, o autor destaca a contribuição da fenomenologia  para a pesquisa científica na medida em que fez oposição ao positivismo  defendendo  a grande  importância do sujeito nos processos de construção do conhecimento e desenvolvimento de pesquisas científicas.

2 –       Para Amatuzzi há uma similaridade entre a postura epistemológica de Husserl e a prática clínica de Carl Rogers que desrespeita as três reduções fenomenológicas (juntamente com uma conseqüência da primeira que no conjunto podem ser chamados de “quatro passos do método fenomenológico”) e suas semelhanças com a postura que o psicoterapeuta deve ter de acordo com o atendimento centrado no cliente ACP proposto por Carl Rogers.

A primeira redução prega que o pesquisador deve desconsiderar (suspender, por entre parênteses) o objeto e valorizar apenas o sujeito – o que por sua vez tem como conseqüência (que pode ser visto como segundo “passo” fenomenológico) um admirar-se, espantar-se com o percebido, desbanalizando-o e desta forma tirando seu caráter de obviedade, no caso da clínica tentar ouvir o cliente como se o que o mesmo está sendo dito o estivesse pela primeira vez. Como se o terapeuta nunca tivesse escutado algo semelhante, por mais que a primeira vista fosse óbvia. Posição análoga a de Rogers na prática clínica que propõe a escuta psicológica na qual o terapeuta deve abdicar de qualquer forma de julgamento moral.

 A segunda redução refere-se a um concentrar-se apenas no que há de essencial na experiência, de se preservar apenas o sentido essencial do que é captado pelo ato de conhecer. O que os fenomenologos fazem  por meio da “variação imaginativa”, técnica que vai colocando o percebido em vários contextos para lhe captar o que é essencial. O que guardaria, de acordo com Amatuzzi similitudes com a ACP de Rogers na medida em que o criador da mesma defende que o psicólogo deve ao se relacionar com outra pessoa colocar à margem qualquer teoria explicativa do funcionamento psíquico, tanto  as do terapeuta como as da própria pessoa.

Por fim, a terceira redução fenomenológica, a redução transcendental que apregoa que no ato de conhecer do sujeito existe necessariamente um componente imensurável que faz parte de todo sujeito que Husserl chamou de eu transcendental em oposição às características mensuráveis que chamou de eu empírico. Esse transcendental Husserl chamou de intencionalidade que estaria presente em todos os atos mentais. Ou seja, há em cada ato mental algo que está fora do ato de conhecer, mas que faz parte do sujeito ainda que ele não saiba. Carl Rogers teria concordado com esta postura ao defender que “eu renunciei a querer remediar tudo a qualquer preço”. Nesta frase que Amatuzzi cita no final de seu artigo fica claro, de acordo com o mesmo, que em cada ato mental existe uma intencionalidade do sujeito que o terapeuta deve considerar.

 

 

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