Algumas questões sobre Psicologia Analítica.

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Contexto de surgimento da Psicologia Analítica

 

Sigmund Freud foi o criador da Psicanálise. Depois de alguns anos de processo criador praticamente sem interlocutores reuniu vários interessados,  formado em sua maior parte por médicos, que em conjunto desenvolveram o movimento psicanalítico nas primeiras décadas do século XX. Dentre eles os mais famosos foram: Alfred Adler, William Reich e Gustav Jung. Que posteriormente viriam a se afastar de Freud e a partir da psicanálise fundar suas próprias psicoterapias.

Inicialmente esses autores queriam continuar chamando suas abordagens de Psicanálise, mas, Freud insistiu para que seus colaboradores dessem um novo nome ao que estavam fazendo, pois de acordo com Freud o que seus colaboradores fazia já não era do campo psicanalítico. Assim, cada um fundou sua própria abordagem. As três foram bastante influentes no século XX.

A Psicologia criada por Jung foi a Psicologia Analítica. Freud imaginava que Jung iria ser seu sucessor. Tanto que o chamava de seu “príncipe herdeiro”. As 357 cartas trocadas entre Freud e Jung demonstravam a ligação que havia entre ambos. Havia motivos especiais para isso, além do reconhecido talento de Jung que ao conhecer Freud já era um jovem médico suíço proeminente (colaborador de Bleuler que por sua vez era um grande médico que teve Piaget entre seus discípulos), Jung não era judeu. Devido o anti-semitismo os judeus tinham suas possibilidades limitadas, Freud que era judeu, como boa parte de seus mais importantes colaboradores temia que a ascendência étnica atrapalhasse o desenvolvimento da psicanálise. Esse foi um motivo importante para Freud conceder uma importância especial a Jung.

Contudo, Jung discordava de alguns pressupostos freudianos. Como a primazia dada à etiologia sexual das neuroses notadamente sua vinculação à sexualidade infantil e ao complexo de Édipo (que de acordo com Jung era um dentre muitos complexos – aliás, essa expressão é da autoria de Jung). Além de discordar desses postulados centrais para a Psicanálise Jung queria estudar outros campos.

 A Psicanálise, desde sua origem tem como objeto de investigação uma dimensão específica da psique humana, o inconsciente. Jung defendia que além deste ‘inconsciente individual’ existia um “inconsciente coletivo’ e se propunha a investigá-lo, como também se interessava por outros fenômenos como telepatia e premonição. Assim, Jung propunha que a Psicanálise passasse a investigar esses novos objetos de estudo. Freud foi terminantemente contrário à abertura destas novas linhas de pesquisa e insistiu que Jung desse um novo nome aos seus estudos e práticas que passaram a se chamar Psicologia Analítica.

Adler, Reich, Jung e outros não se afastaram apenas intelectualmente ou profissionalmente de Freud. O criador da psicanálise e alguns de seus colaboradores mais importantes, que são comumente chamados de dissidentes, cortaram relações sociais. É instigante pensar quais contribuições esse pioneiros do “campo psi” teriam dado uns aos outros, e que legados nos teriam deixado se continuassem a trabalhar em conjunto. Sendo que mesmo separados as pesquisas que realizaram continuam sendo fundamentais.

Inconsciente

 

Jung formulou o conceito de inconsciente de modo abrangente, de tal modo que desse conta de várias dimensões. Uma dessas dimensões do inconsciente é aquela que diz respeito aos conteúdos que não estão conscientes em determinado momento, mas que não são reprimidos e o sujeito pode acessar a em outros momentos. Nesse sentido mais geral só é consciente o conteúdo psíquico que esteja sendo requisitado, e todo o resto seria inconsciente neste momento. Assim, todas as memórias que tenho sobre a última viagem que fiz estão inconscientes até o momento em que alguém me pergunta sobre tal viagem e mobilizo conscientemente minhas memórias relacionadas a essa viagem.

Há outra dimensão (comumente chamada de inconsciente pessoal) onde estão as memórias e pulsões negadas e/ou reprimidas da consciência desde o nascimento até a morte da pessoa, cujos conteúdos são oriundos em grande parte da infância e lutam para vir à consciência. Sua manifestação traz à tona o que a censura permite passar pelos mecanismos de defesa. Nos sonhos, as imagens oníricas vem o mais disfarçadamente possível, para que possa passar pela censura sendo uma forma de realização de desejos reprimidos. O inconsciente possui uma linguagem simbólica não apenas por conta da censura, mas porque é próprio do inconsciente se expressar por meio dos símbolos.

O terceiro sentido de inconsciente para a Psicologia Analítica é o de Inconsciente coletivo. No qual há uma forte carga filogenética ao contrário do inconsciente pessoal que é basicamente ontogenético. No inconsciente coletivo somos influenciados por arquétipos e símbolos atemporais que fazem parte da vida psíquica de nossa espécie ao longo do tempo. Desse modo, no inconsciente coletivo existem várias imagens compartilhadas entre os vários membros da espécie ao longo das gerações. É uma dimensão que está no indivíduo e foi herdada de seus antepassados.

 

Si-mesmo

 

            O Si-mesmo ou Self é a personalidade total da pessoa, formada por inconsciente pessoal, inconsciente coletivo, sombra, Ego, Persona, Animus ou Animma. Por vezes se confunde o Eu ou Ego como sendo a totalidade ou a parte mais importante da personalidade, mas, é apenas uma das dimensões psíquicas que se refere à identidade, memórias, percepções, pensamentos e sentimentos conscientes.

Complexo

            Os complexos Ideo-Afetivos são o conjunto de associações de ideias e afetos em torno de um núcleo temático comum. Ao contrário dos arquétipos que são filogenéticos os complexos são ontogenéticos. Assim, existem infinitos complexos. Pois, cada pessoa possui seus complexos próprios, singulares, que se referem à sua história de vida.

O Complexo do Ego, por exemplo, inclui as ideias e afetos (fantasias, experiências, aspirações, memórias, discursos, desejos, receios, traumas, etc) relacionados ao que cada pessoa entende como fazendo parte de si.  O Ego é o complexo central, pois contêm as referências que cada sujeito utiliza para construir sua identidade e auto-imagem. Contudo não existem dois complexos de Ego iguais, já que existirão tantos complexos quantas pessoas existirem, já que mesmo pessoas muito próximas ou semelhantes terão cada uma seu próprio conjunto de idéias e afetos.

 Por meio dos sonhos, imaginações e emoções podemos acessar vários de nossos complexos. Aprendendo a reconhecê-los. Alguns, contudo, são tão inacessíveis que nem suspeitamos de sua existência.
Existem complexos que se referem frequentemente a situações semelhantes
como culpa e sentimento de inferioridade. Mas, o complexo será singular a cada pessoa. Assim, por mais que muitas pessoas tenham um complexo de inferioridade eles se estruturarão diferentemente em cada sujeito. Para Jung, o complexo é “a via régia” para o inconsciente.  Caminho privilegiado para se ter acesso a essa dimensão.

 

Arquétipo

 

Os arquétipos são modelos, imagens atemporais que fazem parte do inconsciente coletivo e se originaram a partir de experiências que se repetiram diversas vezes ao longo de várias gerações se fixando no psiquismo de modo atemporal, sendo assim, uma herança compartilhada entre todos os membros da espécie. A cultura e o momento histórico podem influenciar a forma como se manifesta os arquétipos (por exemplo, suas formas de representação na literatura, TV etc.), como também a família, a escolha profissional, estilo de vida etc, podem favorecer o aparecimento de determinados arquétipo e não de outros. Assim, as contingências influenciam a forma de aparecimento e representação do arquétipo, mas, seu conteúdo é universal e atemporal não mudando ao longo do tempo.

As mitologias, lendas, religiões e contos de fada possuem em sua essência símbolos arquetípicos que fazem referência às situações e sentimentos universais que foram vividos por nossos ancestrais e que qualquer indivíduo poderá vivenciar. A vivência de um arquétipo pode potencializar aspectos saudáveis do sujeito ou fixar estados psíquicos perturbadores que levem ao adoecimento. É assim, uma reserva de energia disponível no inconsciente coletivo com a qual cada sujeito pode se ancorar para mobilizar seus pontos fortes, contudo, caso um indivíduo esteja sobre a influencia de um arquétipo sem ter condições de assimilá-lo pode entrar em processo de adoecimento.

Os arquétipos da Morte, do Herói, do Fora de Lei, explorador, inocente, bobo da corte, criador, cara comum, mago, sábio, amante, prestativo, governante, herói são exemplos modelos, figuras, que desde criança fazem parte do nosso psiquismo e podem ser ativados favorecendo processos de saúde ou disfuncionalidade. Por meio dos arquétipos temos acesso a uma história do psiquismo da nossa espécie, uma história da humanidade em seus aspectos emocionais. É, em suma, um protótipo ou padrão seminal a partir do qual as pessoas e os povos podem expressar suas características.

Animus/anima

 

            São arquétipos dos gêneros sexuais.  A anima representa o eterno feminino, a bruxa, a donzela, a guerreira, mãe, filha, devassa, forasteira, mãe que se relaciona à intuíção. E Animus o arquétipo masculino do desbravador, pai, filho, guerreiro, herói, canalha, jogador que se relaciona a razão. Possuem função compensadora.

São arquétipos que contém imagens seminais do masculino e feminino. Homens e mulheres para serem completos devem se confrontar com os dois arquétipos. No inconsciente dos homens há as figuras femininas simbolizadas por Anima. E no inconsciente das mulheres há figuras masculinas representadas pelo arquétipo Animus.

Sombra

 

A Sombra é a parte mais obscura da nossa psique, ela recebe tudo aquilo que não aceitamos como parte da nossa personalidade ou “identidade” ou “Ego” (chamado de “Complexo de Eu”). É difícil perceber a sombra, e muitas vezes só temos a possibilidade de percebê-la quando a vemos projetada. Quando interagimos com uma situação, sentimento ou discurso que não reconhecemos, que é muito diferente de nós podemos estar projetando nossas sombras nessa situação. Notadamente quando agimos com repulsa, raiva ou rancor diante dessas situações.

Assim, como a Sombra é basicamente formada por aquilo que reconheço como não fazendo parte de nós, esse conteúdo que identificamos no mundo como não sendo nosso é na verdade uma projeção de nossas sombras. Assim, vemos no outro o que reconhecemos como não sendo nosso. Em suma, reprimimos determinados conteúdos psíquicos que retornam por meio da Sombra em projeções que fazemos no mundo.

Persona

            A palavra Persona vem do teatro grego onde cada ator utilizava uma máscara para interpretar seu personagem. Assim, em sua origem etimológica faz referência a máscara. Em latim Pesona significa através do som, e deu origem ao vocábulo personagem.

            Para Jung a Persona  é como se fosse um personagem que construímos para sermos vistos pelos outros. Como assumimos papéis sociais e comportamentos distintos em diferentes contextos e temos que nos adaptar a muitas circunstâncias a Persnoa é uma construção que fazemos para interagir ou ser aceito em vários cenários sociais.

            Assim, construímos várias personas de acordo com o ambiente no qual estamos. Uma mesma pessoa pode ser filha e mãe, patroa e empregada, professora e estudante etc. E em cada um desses papéis adotará comportamentos distintos. A Persona em si não é boa nem ruim. Se uma pessoa se fixar em uma Persona irá causar atritos nos outros ambientes nos quais essa Persona é inadequada, ao contrário, se tentar desprezar qualquer tentativa adaptativa tentando viver sem máscaras, terá uma personalidade inconveniente e desaptada.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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