Fenomenologia

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DARTIGUES, André. O que é a fenomenologia?Tradução de Maria José J.G de Almeida. EDITORA MORAES, 3ª Edição. 1992.

            Como nos trabalhos de Sísifo a filosofia possui uma longa tradição metalinguística de revisão de sua própria tradição. De tal modo que cada filósofo retoma a história filosófica em busca de fundamentos (de um “terreno absoluto”, de uma “filosofia verdadeira”) que corroborem suas próprias ideias, seja ratificando, ou tentando retificar resultados de filósofos anteriores. Edmund Husserl (1859-1938) passou boa parte da vida empreendendo um esforço de revisão da história do pensamento para tentar recomeça-lo a partir de uma nova proposta, a fenomenológica. É de Husserl a seguinte frase: “Se a idade de Matusalem me fosse concebida, quase que ousaria entrever a possibilidade de vir ainda a ser filósofo”.

            É característica da obra husserliana a mensagem de que o a cultura passa por uma crise, em sua legitimidade, em seu estatuto de cientificidade, e que a fenomenologia seria uma resposta a esta crise. Mesmo o positivismo que no final do século XIX sustentava epistemologicamente algumas ciências como matemática e psicologia (essa seguindo os padrões da época tentava eliminar aspectos subjetivos na busca de alcançar uma objetividade análoga a das ciências da natureza), é posto em descrédito ao ser questionado sobre qual seria o sentido de sua objetividade? Como essa se relaciona com o psiquismo? Teriam as leis científicas realmente uma validade universal?

            Para responder essas perguntas Husserl foi influenciado por Franz Brentano que teria deixado a fórmula: “Ninguém pode verdadeiramente duvidar que o estado psíquico  que em si mesmo percebe não existe e não existe tal como o percebe”. Dito de outro modo Brentano distingue os fenômenos psíquicos que possuem intencionalidade dos fenômenos físicos e defende que a forma como percebemos aqueles constitui a forma fundamental de conhecê-los. Esta posição era estratégica, pois atendia ao requisito positivista de só considerar o saber que se origina da experiência e por outro lado abre espaço ao estudo do psiquismo que era desacreditado até então. Contudo, Husserl fica insatisfeito com os resultados de Brentano, pois, se ele destacava os fenômenos psíquicos deixava de lado algumas perguntas como: poderá um conceito lógico ou matemático, como um número se reduzir à operação mental que o constitui, por exemplo, à numeração? E se ele não reduz a isto, não será o estudo da operação mental mais que uma simples descrição do psiquismo? Husserl se vê impelido a criar a fenomenologia.

 

            Sob a influência de Bentrano a grande crítica de Husserl às “ciências morais”, tais como a psicologia, é de que as mesmas se apropriam dos métodos das ciências naturais sem discernirem que seu objeto de estudo é diferente. Neste ponto Husserl concorda com Dilthey. Pois para ambos falta às ciências como a psicologia a precisão na determinação do objeto. Conta uma anedota que ao ser perguntado o que era inteligência Binet respondera: “a Inteligência é o que meus testes medem”. Esse episódio mostra uma imprecisão científica. Pois, como se pode calcular sobre sensação, percepção, memória sem saber o que essas palavras significam? A encruzilhada que Husserl encontrou apresentava dois caminhos, um empirista, naturalizante que Husserl chamou de “psicologismo” e um que levava às filosofias especulativas. A fenomenologia surge como terceira via que tenta se ativer aos dados da experiência em sua totalidade, acreditando que o fenômeno percebido está penetrado na forma como pensamos, constituindo acesso verdadeiro à experiência. Deste modo a filosofia deixaria de ser uma visão de mundo e passaria a ser um assunto que diz respeito a todos ao tratar de experiências concretas.

            A fenomenologia busca assim um saber rigoroso, como já havia feito Descartes com o “eu penso”, mas que falhara por utilizar um pressuposto metafísico como garantia de verdade. A legitimidade do discurso para a fenomenologia, o “princípio dos princípios” estaria em intuições originais, para assim “voltar as coisas mesmas”. Essa intuição não é apenas sensorial, pois se fosse, desembocaria em um ceticismo como o de Hume. Pois como os fenômenos possuem um sentido ou essência que pode ser intuída. E esse sentido pode ser compreendido.

Então a prova da essência é a existência? A prova do logos é o fenômeno?

            Já que o fenômeno é também logos. Ou seja, há na intuição da experiência concreta ou da coisa em si uma ligação à concretude da experiência que também é formada pelo pensamento.  Assim não se pode dizer de qualquer fenômeno que ele é nada, pois o que não é nada não é, e por existir terá uma essência, que se demonstra pela possibilidade de designação. Husserl utilizava como exemplo a nona sinfonia, por mais que possa ser tocada em infinitos contextos ou mesmo não ser tocada ela será realidade ainda que como pura possibilidade. Essa possibilidade ao se objetivar gera um fato que nunca é destituído de sentido, e, portanto, possui uma essência. Husserl destaca a importância de distinguir entre intuição da essência, que abarca o sentido, e percepção do fato, que não inclui o logos ao fenômeno.

            Assim sendo uma primeira tarefa da fenomenologia é por meio da intuição de essência, que são possibilidades puras, elucidar a essência das formas de pensamento para determinar as condições de inteligibilidade. Para distinguir sua concepção da teoria das ideias platônica Husserl descarta um lócus metafisico as essências e as situa na consciência. Uma segunda tarefa seria fazer a analise intencional. De acordo com o princípio da intencionalidade a consciência é sempre consciência de algo. Por sua vez qualquer objeto só pode ser definido em relação à consciência. Dito de outro modo a questão “O que é o que é”, que dá conta do fenômeno, remete a outra questão que é “O que se quer dizer”. Essa se refere a intenção.Todo objeto é assim objeto-percebido, objeto-pensado. A análise intencional é assim a análise do encontro entre objeto e consciência que não podem ser separados. Assim se estabelece o campo fenomenológico que é o da correlação entre consciência e objeto. Assim Husserl vai além da psicologia descritiva de Bentrano e funda uma “ciência descritiva das essências da consciência e de seus atos”. Pois, a consciência contém muito mais que a si própria. Em um sentido sartreano a consciência contém a essência daquilo que ela não é, o sentido mesmo do mundo em direção ao qual ela não cessa de “explodir”.

            A análise intencional conduz a redução fenomenológica, ou colocação do mundo entre parênteses. Husserl diz que há uma atitude natural que coincide com o senso comum e que deve ser colocada em suspenso. Ela consiste em pensar que o sujeito está no mundo como em algo que o contém ou como uma coisa entre outras coisas. A vida psíquica de acordo com essa atitude natural seria uma realidade do mundo entre outras. A psicologia estaria para a consciência como a astronomia para as estrelas. Ao contrário dessa atitude Husserl propõe a atitude fenomenológica onde a consciência deixa de ser uma parte do mundo, e o mundo que passa a ser a partir de sua percepção pela consciência. A consciência passa a ser vista como o local de desdobramento do mundo no campo original da intencionalidade.

            A fenomenologia então estudará a intencionalidade da consciência para saber como se produz os sentidos dos fenômenos. Sendo o fenômeno mais global o que se chama mundo. Para assim ir além da atitude natural que se contentava em entender a consciência como posta no mundo (em um realismo ingênuo) ou o mundo posto na consciência (em um idealismo), a atitude fenomenológica vai além buscando os sentidos da relação entre a consciência e o mundo dado que constitui o próprio fenômeno. Esse fenômeno comporta elementos reais, como a abertura da consciência para o mundo por meio da percepção, imaginação, memória, ideação etc. Elementos esses que partem do lado-sujeito da consciência em direção ao seu lado-objeto que é irreal. Pois, os objetos que a consciência põe no campo perceptivo não existem, de fato, além dessa mesma percepção. Assim os objetos, e o próprio mundo é constituído e  a fenomenologia será o estudo da constituição do mundo na consciência ou fenomenologia constitutiva.

“É preciso aprender a unir conceitos que estamos habituados a opor: a fenomenologia é uma filosofia da intuição criadora. A visão intelectual cria realmente seu objeto, não o simulacro, a cópia, a imagem do objeto, mas o próprio objeto. É a evidência, essa forma acabada da intencionalidade, que é constituidora”.

            Com isso Husserl acreditava está desenvolvendo o verdadeiro positivismo: “Se por positivismo se entende o esforço, absolutamente livre de preconceito, para fundar todas as ciências sobre o que é positivo, isto é, suscetível de ser captado de maneira originária, somos nós que somos os verdadeiros positivistas.” Contudo, surge um problema. “Se a redução fenomenológica faz aparecer o mundo como fenômeno e se a gênese de seu sentido é perceptível na vivência da consciência, nem tudo está dito sobre o sentido dessa vivência, sobre o sentido das estruturas nas quais se constitui o sentido do mundo”. O campo da analise intencional poderá levar a dois caminhos, um idealista e outro que sinaliza o existencialismo.

Deste modo não haveria necessidade de distinguir o eu concreto do eu transcendental, resultando em idealismos, pois o ponto de contato entre ambos é precisamente a correlação dos polos.
Husserl é um filho de seu tempo e, portanto, um rebelde positivista?

            No sentido idealista o sujeito husserliano se aproxima da mônadaleibniziana, uma “totalidade fechada sobre si mesma da qual não podemos sair”, “que constitui continuamente a si própria como sendo”. Pois, “A redução fenomenológica fez aparecer como resíduo, que não pode ser reduzida, a vivência da consciência. Mas esta vivência é vivida por um sujeito, ao qual se referem os objetos no mundo e de onde vêm as significações” A análise da consciência voltada para seu lado-sujeito torna-se uma “exegese de si próprio”, “ciência do eu” ou “egologia”. E o problema que surge com isto é que esse eu é basicamente o “eu psíquico” ou “mundano” que é uma “região ou uma parte do mundo”.O que resultaria em uma “simples psicologia” o que não atenderia à vontade de Husserl de dar a fenomenologia uma “dimensão absoluta”. Para tanto Husserl lança mão do “eu ou sujeito transcendental.”. Que seria “a essência do eu concreto”. Uma outra perspectiva, mais existencialista, seria aquela na qual se “se acentua ao contrário a própria correlação consciência-mundo, que será bastante fácil traduzir por ser-no-mundo. Se o verdadeiro resíduo da redução fenomenológica é essa correlação e não o sujeito transcendental ou “sujeito puro” que aproximava Husserl dos neokantianos, a fenomenologia poderá se tornar estímulo das novas filosofias da existência”. Como pensava Merleau-Ponty: “Voltar as coisas mesmas é voltar a esse mundo antes do conhecimento, do qual o conhecimento fala sempre e com relação ao qual toda determinação científica é abstrata, e dependente, como a geografia com relação a paisagem onde aprendemos pela primeira vez o que é uma floresta, uma campina ou um rio”.

           

            A fenomenologia propõem uma metodologia da compreensão nas ciências humanas. “restaurando a intencionalidade em seu sentido óbvio, isto é, como visada da consciência e produção de um sentido, que a fenomenologia poderá perceber os fenômenos humanos em seu teor vivido.”. A ideia de intenção “está no fundamento do compreender” do modo como supõe as investigações de matriz fenomenológicas nas ciências humanas. O que distingue radicalmente os objetos naturais como uma pedra dos objetos carregados de sentido como uma pedra esculpida simbolicamente. “Compreender um comportamento é percebê-lo, por assim dizer, do interior, do ponto de vista da intenção que o anima, logo, naquilo que o torna propriamente humano e o distingue de um movimento físico”.

            Mas e como distinguir um sentido aparente de um mais profundo? Ou como saber que a clareza de uma intenção não é enganosa? E quando um comportamento não tem nenhum sentido aparente, como em alguns comportamentos neuróticos ou psicóticos? Em outras palavras, como saber se não nos enganamos em relação as intenções dos outros se eles próprios podem se enganar a si? Isso ocorre devido “os sujeitos humanos não serem espíritos puros e intemporais”. Pois, se o fossem “pura transparência de si para si, se ela (a consciência) se contivesse toda inteira dentro do instante em que manifesta sua intenção, esta seria perfeitamente dominada e não lançaria raízes fora do momento em que a consciência a formula”. Contudo, “a vida psíquica antecede e excede a reflexão consciente, ela comporta formações antigas que lhe escapam e determinam sua visada antes que ela tenha podido esclarecê-las refletindo-as.”.

Importante destacar que para Husserl o ser humano não apenas constitui o mundo como também a si próprio, devendo refletir sobre suas próprias intenções para melhor compreender a vida irrefletida. Para tanto Husser distingue intenção temáticaque é saber do objeto e saber deste saber sobre o objeto” e a intenção operante ou em exercício “que é a visada do objeto em ato, não ainda refletida”. Essa distinção é análoga ao inconsciente freudiano pois:

“A primeira esforça-se por alcançar a segunda que a precede sempre, mas sem jamais consegui-lo. A reflexão, logo, o saber consciente só se exerce sobre esse fundo de irreflexão, nessa dimensão de vida que já é sentido, porque visada de objeto, que já é uma perspectiva sobre o mundo, mas sentido ainda não formulado e que, afinal de contas, nenhuma fórmula poderá nem recuperar nem conter”.

Fenomenologia e Psicanálise

            A aproximação com a psicanálise fica mais nítida com o conceito de gênese passiva e ativa. A gênese ativa são os atos, as intenções propriamente. Mas elas só são possível devido aos atos e intenções anteriores ao longo da história de cada um. A gênese passiva é o “já constituído”, o “já pronto”, “já formado” a partir do qual qualquer visada é possível. Por meio de “matéria primitiva, feita de associações perceptivas e de hábitos”. Assim como na visão freudiana “a unidade do eu não é a do instante pontual, mas a de toda a sua história: o ego se constitui para si mesmo, por assim dizer, na unidade de uma história”. Apesar disso, não se pode igualar fenomenologia e psicanálise que são distintas em seus objetivos basilares já que a fenomenologia tem objetivo filosófico com um método reflexivo redutivo já a psicanálise possui objetivo terapêutico com método analítico.

O universal da fenomenologia é o mundo vivido?

 

Então preciso ter algo análogo ao outro para entende-lo?

            A compreensão é a conjunção entre a intencionalidade de uma consciência que possui vontade de conhecer outras intenções a serem conhecidas. Um problema que se põem é o da explicação dessa compreensão. Entre um fenômeno qualquer, como um riso histérico ou um discurso delirante e “uma fase explicativa sem a qual o sentido do comportamento patológico não aparecerá” poderia se está entrando em uma “objetivação científica” que teria “esvaziado toda dimensão subjetiva” e, portanto impedido uma “compreensão nova”. Ao contrário, para a fenomenologia “os dados explicativos devem levar a (…) uma intuição do sentido humano do fenômeno estudado”. No caso da psicopatologia fenomenológica a pergunta central é: “Onde se produz a defasagem de seu psiquismo com relação ao nosso?”. Perceber do interior a vivência patológica do outro é ir além dos dados objetivos para perceber o que fundamentalmente é a dimensão do ser homem e do estar no mundo da existência perturbada pela doença. Por isso uma fenomenologia patológica é também uma fenomenologia da existência ou ainda temporal.

            Mas para explicar algo é preciso saber antes do que se trata esse algo. Logo, é necessário definir o que é o homem? Pela fisiologia porque não incluir nessa categoria um chimpanzé? Pela cultura porque não excluir o aborígene? Diante desse impasse a fenomenologia se apega “ao mundo vivido” e o põe como a priori. Produzindo um “conhecimento antes do conhecido”.

 

RODRIGUES, Adriano Carvalho Tupinambá.Karl Jaspers e a abordagem fenomenológica em psicologia.Rev. Latinoam. Psicopat. Fund, VIII. 4. 754-768.

                Karl Jaspers foi o maior desenvolvedor da psicopatologia fenomenológica. Tendo por formação básica a medicina psiquiátrica Jaspers possuiu ao longo de sua trajetória um trabalho contínuo no campo filosófico, com destaque para a epistemologia, pondo em destaque a centralidade da questão metodológica. Sendo assim, é considerado por alguns um psiquiatra e por outros um filósofo existencialista. Sua obra “Psicopatologia Geral” (AllgemeinePsychopathologia), que embora de acordo com o próprio autor seja um manual de apresentação geral sobre a psicopatologia, é considerada uma grande fonte para o estudo da psicopatologia fenomenológica. Seja como for, é um clássico da psicopatologia e uma das obras mais importantes de Jaspers.

Quais seriam exemplos de abordagens ou psicologias objetivas e subjetivas? A ACP seria subjetiva?

            Ao fundamentar sua perspectiva Karl Jaspers formula uma crítica tanto aos métodos que almejavam tratar o psíquico sob uma ótica análoga ao modelo científico naturalista, com metodologia casualista-explicativa. O que excluiria da psiquiatria e da psicologia precisamente o que há de mais essencial nelas que é a dimensão psíquica que é por natureza distinta da dimensão natural. Realiza igualmente uma crítica às psicologias subjetivistas de método histórico-compreensivo, que, embora não realizem uma deturpação do objeto de investigação como as abordagens naturalistas, falham por não produzirem resultados que possam ser registrados como científicos.

            A apreensão imediata e intuitiva dos fenômenos psicológicos da terceira pessoa que a empatia oferece, no modelo de psicologia subjetiva, não é passível de sistematização e não provê conhecimento explícito. Nesse ponto Jaspers faz uma distinção entre empatia e compreensão empática. A empatia não é consciente eportanto, não é passível de pontos visíveis de ancoragem que possam ser utilizados clinicamente.

Se Jaspers só tratou das questões epistemológicas como ele procedia com os pacientes? Não escreveu sobre sua clínica? Só escreveu sobre sua psicopatologia? E sua psiquiatria?

            Já a compreensão empática estaria no cerne mesmo da fenomenologia. Pois consiste em uma compreensão da experiência do outro que pode ser tornada cognoscível. Prestando-se assim aos propósitos fenomenológicos de distinção, nomeação e descrição dos processos subjetivos. Para assim poder ser construído um saber sistematizável, comunicável e testável. O que caracterizaria precisamente a psicopatologia descritiva ou fenomenologia. Que teria como parâmetros gerais o foco nos fenômenos realmente vividos pelo paciente. E que a descrição de tais fenômenos deveria ser realizada com parâmetros exteriores observáveis tais como: modo de surgir, contexto de aparecimento, conteúdo etc.

Desse modo Jaspers visava proporcionar uma ancoragem empírica à psicopatologia que resultasse em dados passíveis de observação no lugar de sistematizações teóricas. Por isso a importância de se dirigir ao que se afigura e como se afigura ao paciente recorrendo a parâmetros objetivos de descrição. Para garantir à psicopatologia ancoragem empírica em dados observáveis por qualquer um. A realidade ontológica desse modelo obviamente é questionável por se legitimar na dependência do observador que como em um elemento teórico é preenchido por subjetividade. Jaspers tenta resolver esse ponto destacando que a fenomenologia se propõem a oferecer uma linguagem para a psicopatologia e (em um primeiro momento) não um modelo clínico. O objetivo de Jaspers é por meio da compreensão empática apreender estados psíquicos, sem integra-los, (ao menos em um primeiro momento), o que Jaspers chamou de “compreensibilidade estática” para em um segundo momento com “conexões compreensíveis” chegar a “compreensibilidade genética”.

            Uma grande influência para Jaspers foi Wilhelm Dilthey e “sua defesa à valorização de uma perspectiva descritivo-analítica para as ciências humanas, em detrimento aos enfoques teórico-explicativos”. Para Dilthey os diversos aspectos da vida psíquica não poderiam ser compreendidos isoladamente o que distinguiria epistemicamente a psicologia das ciências naturais. Só por meio do todo psicológico se pode entender os eventos particulares. Por isso a psicologia experimental, associativa e das faculdades eram falhas. Era também avesso a tratamentos metafísicos ou idealistas à psicologia como também ao isolacionismo positivista. Queria alçar a psicologia à condição científica e não psicológica. Dentre os pontos de confluência entre Jaspers e Dilthey destaca-se: “a ideia de articulação entre os componentes da vida psíquica, contínua ressignificação do todoa partir das partes e vice-versa, exigência do examinador para examinar as introspecções e descrição como princípio de exploração.

            A fenomenologia adquiriu significações muito distintas, sendo distinta mesmo em seu sentido para autores colocados comumente como próximos como Husserl e Heidegger, Sartre e Merleau-Ponty ou Binswanger e Blankenburg. E seria errôneo tentar compreender Jaspers à luz destes autores que entre si são por demais diversos. Embora Husserl não tenha pretendido criar um método de acesso empírico à experiência psicológica ou uma psicologia descritiva e sim estudar a consciência como objeto em si, Jaspers toma “o primeiro Husserl” como influência por seu sistema filosófico que unia elementos lógicos, linguísticos, ontológicos e epistemológicos. Como também podemos inserir Jaspers na tradição geral fenomenológica-existencialista por recusar a possibilidade de entendimento do ser ou da existência desconsiderando o mundo que o cerca. Dito de outro modo Husserl estaria para a fundamentação das ciências humanas e da psicologia como Jaspers estaria para a fundamentação da psicopatologia.

JASPERS, Karl. A abordagem fenomenológica em psicopatologia. Ver. Latinoam. Psicopat. Fund., VIII, 4, 769-787.

Sintoma é entendido aqui, de modo geral, como sinônimo de fato, evento, dado.  Sintoma patológico um evento específico.

É comum a distinção entre sintomas objetivos e subjetivos. Entre os objetivos estão os eventos concretos que podem ser percebido pelos sentidos, tais como: reflexos, fisionomia, verbalização, escrita etc. Já os sintomas subjetivos não podem ser percebidos pelos sentidos. Sendo necessária para sua compreensão uma transposição de si ao psiquismo do outro por meio da empatia. Entre os sintomas subjetivos estão: medo, tristeza, alegria etc. A partir desta distinção surgem também psicologias objetivas (entre as quais se incluem o campo da senso-percepção, mensuração de memória, curvas de performance etc.) esubjetivas. Enquanto a primeira descarta tudo que é psíquico tornando-se fisiologia. A segunda tenta responder do que depende a experiência mental, quais suas consequências e quais relações podem ser descriminadas. Contudo, antes de se fazer uma psiquiatria ou psicologia subjetiva é necessária uma psicopatologia fenomenológica que identifique os fenômenos psíquicos os representando, definindo e classificando. Husserl foi um pioneiro nesse sentido.

Para Jaspers então abordagens como a ACP não seriam psicológicas?
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Herança positivista em busca da neutralidade? A ciência moderna inteira não seria herdeira nesse sentido?

No entanto, ninguém possui na prática cotidiana uma postura metapsiquíca de refletir sobre seus estados mentais ou sobre os estados mentais do outro. E os psiquiatras seguem o senso comum nesse padrão, pois, embora compartilhem as experiências dos pacientes não refletem sobre as mesmas de modo a esboçar um saber sistematizável, comparável, organizável, suscetível a testagens. Ao contrário, o psiquiatra costuma basear seu discernimento em uma atitude meramente empática que adquire uma subjetividade como sinônimo de imprecisão. Assim sendo, para se desenvolver uma ciência psicológica é necessária uma compreensão consciente dos fenômenos mentais é necessária uma terminologia e formas que possam ser comunicáveis, investigadas e discutidas para além da experiência empática de dois indivíduos. Já que uma compreensão científica implica: classificação, definição, diferenciação e descrição. Para tanto se deve considerar apenas o que se apresenta à consciência do paciente, levando em consideração o surgimento e as sensações relacionadas a um fenômeno individual. Logo, para isolar, caracterizar e dar forma a estes fenômenos devemos ter uma apreciação real dos mesmos por meio da observação de sua gênese, condições de surgimento, configurações, contexto e possíveis conteúdos concretos (também por comparações intuitivas e simbolizações). Pois só com estas pistas exteriores é que se pode falar em trabalho psicológico.

A fenômeno-logia como pensou Jaspers é uma psicopato-logia e não psiquiatria.

Para compreendermos ou atualizarmos em nós próprios esse conjunto de fenômenos, por natureza, irredutíveis dispomos de expressões como empatia ou compreensão. De modo semelhante ao que a percepção tem na ciência natural. E como nesta a confiabilidade do perceber se dar por comparação, repetição e verificação. O que ocorre por meio de três métodos básicos: imersão na conduta do outro, exploração por questionamento direto e autodescrições escritas. O objetivo inicial é o de apreender, delimitar e retratar um elemento particular. De tal modo a compreender e não explicar (em um primeiro momento) os fenômenos que podem ser divididos em três grupos. Um primeiro que corresponde aquelesfenômenos conhecidos pela própria experiência do observados, como falsificações da memória, sua diferenciação entre normal e patológico se dar mais no modo de origem. O segundo grupo é o de exagero de experiências que o próprio observador pode ter, como êxtases em psicoses agudas ou impulsos mórbidos. E o terceiro grupo é aquele que é inacessível à experiência do observador e que o próprio paciente tem dificuldade em verbalizar. E só podem ser entendidos por figuras de linguagem ou analogias. Por isso muitos pacientes criam neologismos.

Jaspers fala das outras classificações como válidas, mas não para a fenomenologia, quais seriam seus espaços então?

E com este esforço várias definições foram alcançadas como falsificações dos sentidos, alterações depressivas e expansivas de humor etc. Para que tal empenho possa prosseguir é necessário se afastar de pressupostos físicos ou psicológicos sobre esses fenômenos. Para assim classifica-los. Tal classificação pode levar em consideração origem, determinantes físicos, conteúdos ou significados em determinada perspectiva (estética, ética, lógica) e todos estes modos devem ser usados nos espaços que lhes competem, mas a fenomenologia não os utiliza, preferindo os aspectos dos fenômenos que são realmente experimentados. Por exemplo, um conteúdo imagético será compreendido levando-se em consideração se sua imagem é vaga ou bem definida para o paciente e não por meio de teorias ou noções preestabelecidas. Pois todo fenômeno psíquico é irredutível.

A fenomenologia se interessa apenas pela experiência real e a cada novo achado de questionar-se: o paciente realmente experimentou isso? Isto realmente se apresenta na consciência de um sujeito? Esses resultados podem ser considerados errados por terem sido mal representados e não por refutações teóricas. A fenomenologia não se propõem a encontrar a gênese dos fenômenos psíquicos.  E qualquer questão genética não pode refutar ou ratificar os resultados fenomenológicos. Também são extrínsecos à fenomenologia estudos de cores, percepções etc. Mas mais contrário À fenomenologia são as mitologias cerebrais que tentam entender eventos psíquicos de modo fisiológico.  É importante ainda não confundir o tipo de compreensão que destaca a relação significativa entre os fenômenos psiqícos buscando a “emergência do psíquico a partir do psíquico” que chamamos de “compreensão genética” com o tipo de compreensão fenomenológica que busca dados, experiências, modalidades conscientes e sua delimitação o que chamamos de “compreensão estática”. Essa estuda um fenômeno e não sua relação ou origem a partir de outros.

SILVEIRA, Lia Carneiro. BRAGA, Violante Augusta Batista. Acerca do conceito de loucura e seus reflexos na assistência de saúde mental. Ver Latino-am Enfermagem 2005 julho-agosto; 13(4):591-5.

Aqui certamente a referência principal são as sacerdotisas, pitonisas dos templos de Apolo. Correspondente aos profetas das tradições do deserto.

            A contemporaneidade ocidental produz e naturaliza uma visãopatologizante do sofrimento psíquico com quadros nosológicos que conduzem à noção de (re)adaptação. O que repercute nos espaços e práticas destinadas à saúde mental. Em outras épocas existiram outros modelos. Na Grécia arcaica* a desrazão, ou espaço de alteridade radical, que na modernidade passou a ser ocupado pela figura do louco, era ocupado por pessoas que por sua estranheza e peculiaridade eram associados a uma maior proximidade do sagrado. E era por meio do delírio que alguns poucos tinham contato com as verdades divinas. Na antiguidade clássica essa valorização da experiência mística perde relevância sendo paulatinamente substituída pela centralidade da consciência crítica. Na idade média o espaço de alteridade radical era ocupado pelo leproso. E no século VXIII, o século das luzes, a loucura passa a ser tida consensualmente e sistematicamente como objeto do saber médico, caracterizada como doença e portanto passível de tratamento e de cura. O que levou a um modelo hospitalocêntrico que por sua vez viria a ser questionado por Franco Basaglia, que propondo a desinstitucionalização colaborou para a reforma psiquiátrica. Almejando uma mudança de paradigma que passasse a perceber a loucura não como doença mental, mas como existência-sofrimento diante de uma relação com o corpo social.

*          No texto é posta a distinção entre Grécia antiga e clássica, aqui se prefere utilizar o termo arcaico no lugar de antigo para se referir aos períodos mais antigos da Grécia por se entender que o período clássico também faz parte da história antiga.

TENÓRIO, Carlene Maria Dias. A psicopatologia e o diagnóstico numa abordagem fenomenológica-existencial.UniversitasCiências da Saúde – vol.01 n. 01 –pp.31-44

Erro? No título fala-se de três métodos: compreensivo, dialético e fenomenológico. Só aparecem o dialético, compreensivo eexplicativo. Creio que foi só uma má redação (elipse) e que fenomenológico é posto como sinônimo de compreensivo

            Heidegger funda o existencialismo oficialmente com a publicação de sua obra Ser e Tempo de 1927. Almejava elucidar a questão ontológica de modo geral em particular determinando o que caracterizava o ser humano. Sustentava que somos ontologicamente livres e, consequentemente responsáveis. Sem negar as essências como determinações formais, estruturais ou naturais o existencialismo defenderá que há para o homem uma margem de opção na qual se dá sua liberdade. Nas palavras de Sartre, não importa o que foi dado ao homem mas o que ele faz com o que recebeu. E é precisamente por ser livre e responsável que o homem se angustia.

Para tanto utilizou o método fenomenológico de Husserl. Este, por sua vez, tinha um tinha um enfoque epistemológico de tentar alçar as ciências humanas a um grau máximo de rigor científico.

Análogo ao determinismo psíquico freudiano?

O que no caso da vida psíquica significa ater-se aos fenômenos psíquicos sem recorrer a quaisquer pressupostos teóricos. Captando o experiencial do sujeito de acordo com sua expressão, verbal ou escrita, objetiva ou subjetiva. Além da descrição busca a essência dos fenômenos. Sempre tendo como diretriz o aspecto da intencionalidade da consciência, segundo o qual não existe objeto-em-si mas, sempre objeto-para-uma-consciência ou objeto-percebido de tal modo que objeto e consciência possuem uma correlação co-original. E à fenomenologia caberia elucidar tais correlações. Buscando a compreensão do significado que o mundo tem para cada sujeito por meio da descrição minuciosa de suas vivências. Tentando entender o sentido a partir do fenômeno e de como ele emerge na consciência.

            O enfoque fenomenológico existencial trabalha com três metodologias básicas: compreensiva, dialética e fenomenológica. Sobre a primeira é importante destacar a distinção entre compreender que se refere a entender as motivações que levam a uma ação enquanto o explicar desrespeito às causas da mesma ação. Por exemplo, ao observarmos um bêbado explicamos os efeitos fisiológicos do álcool (lentidão dos reflexos, incoerência associativa etc.) e compreendemos a reação de esquiva das pessoas ao bêbado. E há o método dialético que entende os fenômenos como resultantes de processos conflituosos que constantemente levam a novas sínteses em novos estados de organização (cada vez mais complexos). Assim, subjetivo e objetivo, consciente e inconsciente, doença e saúde fariam parte de uma dinâmica dialética própria da vida.

Essas duas linhas apenas sobre o aspecto temporal são decorrentes do estilo do artigo, que cita e depois volta ao relacional.

            O ser na visão fenomenológica-existencialista é visto como pluridimensional, livre, criador de sentidos no mundo, consciente de sua finitude e responsabilidade, capaz de cuidar de si mediante a práxis. A psicopatologia de a partir dessa abordagem ver o sofrimento psíquico como situação na qual uma pessoa se ver sem escolhas, com sensação de encurralamento, de impotência perante as vicissitudes, e submisso as mesmas. Em uma situação alienante e inevitável. Neste processo o sujeito perde o contato com as possibilidades transformadoras do campo organismo-meio.

            A superação desse sofrimento se dá em relacional e intersubjetivo confirmando a prioridade da relação com o outro na constituição do sujeito ao longo de todo o seu desenvolvimento resultando em saúde ou doença. A saúde seria uma habilidade para atingir equilíbrio na relação com o ambiente. Para tanto é necessário um longo processo de autoconsciência que se inicia já na infância em uma necessária e progressiva superação da primazia do outro. A um só tempo o ambiente saudável seria aquele que passa a sensação de segurança e aceitação à criança mas permite sua progressiva autonomia. Junto do aspecto relacional os estados patológicos são também resultados de desorganizações na cronologia existencial. Como para o melancólico que percebe o tempo como parado.

Para Buber não existe o ser em si, mas apenas o ser na relação, o ser é, para sua filosofia dialógica, posterior à relação. Para Buber bloqueios neuróticos e até desestruturações psicóticas surgem porque as experiências da criança não foram valorizadas, de tal modo que ela sentiu a necessidade de alienar uma parte de si, por não se sentir confirmada, valorizada em sua própria experiência. Para Romero, no livro “O inquilino do imaginário” a patologia consiste em modalidades particulares de internalizar a figura do outro. O neurótico seria o que internaliza a figura do outro como dominante, perante a qual o próprio indivíduo se coloca como secundário. O que gerará uma angústia sintomática distinta da angústia existencial que faz parte da condição humana e motiva a criatividade em busca de soluções. A psicose seria a negação do diálogo, e, portanto, há uma profunda alienação de si e do outro. Já na psicose teríamos a quase ausência do outro, sendo este apenas um objeto de significação temporária.

No psicodiagnóstico o psicólogo não tenta enquadrar ou explicar o paciente, pois a vivência do paciente é sua própria explicação. A fenomenologia é assim, uma filosofia da experiência. Que ocorre pela escuta do ser e pela redução fenomenológica ou epoché, que consiste em, suspendendo os juízos, identificar e explicitar o modo de existência do sujeito em sua relação com o ambiente tentando apreender o ser em sua totalidade. Para tanto há quatro passos. Observar e escutar a pessoa por inteiro em suas oito dimensões existenciais fundamentais (dimensão ontológica de ser-no-mundo, social e interpessoal, práxis, corporal, motivacional, afetiva, espaço-temporal e axiológica). Descrever cada experiência significativa. Buscar as relações de sentido entre as diversas experiências vividas efazer um diagnóstico descritivo com base no repertório significativo do próprio sujeito.

MOREIRA, V. O método fenomenológico de Merleau-Ponty como ferramenta crítica na pesquisa em Psicopatologia. Psicologia: Reflexão e Crítica, 2004, 17 (3), pp. 447-456.

            O ideal é falar em métodos fenomenológicos e não a expressão correspondente no singular. Pois, as diferenças entre o idealismo transcendental de Husserl, a ontologia do ser-no-mundo de Heidegger, a fenomenologia existencial mundana de cunho antropológico de Merleau-Ponty são tão grandes que impõem que vejamos esses e outros enfoques como metodologias fenomenológicas distintas.

            Merleau-Ponty faz uma crítica a Husserl no sentido de transpor sua essência idealista para uma existência factual. O pensador francês critica a ideia que o ser é produto de uma coisa, como também critica a ideia de que a consciência possa ser consciência sozinha, também em oposição a Husserl discorda que a fenomenologia deva caminhar na direção científica. Nega a divisão interior e exterior. Para Merleau-Ponty a percepção não é um ato psíquico, mas a fusão entre objeto e sujeito, o que nega o idealismo transcendental apontando para um campo de experiência no qual o homem é mundo e o mundo é homem em um “atolamento congênito”. A redução fenomenológica não seria um método de perceber essências da consciência separada do mundo e de suas intenções, mas uma estratégia de questionar o mundo para percebê-lo existencialmente. É impossível ver a essência como objeto. O verdadeiro para Merleau-Ponty é um movimento em constituição e não um estado, aparecendo e desaparecendo na opacidade do mundo. O que impede qualquer absoluto ou totalitarismos.

            Há alguns aspectos que, contudo, são comuns as diversas abordagens fenomenológicas, como a busca do significado da experiência como finalidade última. Porém, o significado que se dará a tal experiência irá variar. Em uma compreensão idealista a descrição buscaria atingir a essência, ou seja, o que é invariante, universal como também propôs a psicopatologia de Jaspers. Ou pode ser uma compreensão mundana crítica como a de Merleau-Ponty.  Para referenciar uma psicopatologia de base existencial mundana podemos utilizar a metáfora da pintura de Cézanne aplicando-a ao psiquismo. Merleau-Ponty compara a pintura de Cézanne à fotografia. Concluindo que a primeira é real e verdadeira por não se prender a um traço mas captar o movimento da vida em suas cores e espessuras. E com seus múltiplos contornos o desenho se aproximaria da vida com suas ambiguidades inerentes. Com este referencial o psicótico seria aquele ser que é pura cor, não estabelecendo contornos, limites. Já o neurótico contemporâneo vive um contorno rígido que é puro traço, se assemelhando a exatidão da fotografia.

            O instrumento mais utilizado na psicopatologia fenomenológica, como em outros métodos qualitativos, como etnografia e estudo de caso é a entrevista. No caso fenomenológico trata-se de entrevista semiestruturada com perguntas disparadoras. Que visam compreender o significado da experiência vivida pesquisada. Gravadas por completas e depois transcritas integralmente (texto nativo), preferencialmente pelo entrevistador para que a transcrição possa ser fidedigna a detalhes como silêncios, choros etc. Há também o registro escrito feito pelo próprio paciente. E pode-se ainda utilizar vídeos de terapias individuais ou grupais para posterior investigação. Seja qual for o instrumento o mais importante é a priorização da experiência do sujeito-colaborador. Que recebe esse nome por ser sujeito ativo no processo terapêutico ou diagnóstico.

            Na tradição de pesquisa qualitativa há, além da fenomenologia, a etnografia, biografia, estudo de caso e teoria fundamentada. É comum os pesquisadores que utilizam esse prismas competirem com a tradição quantitativa evitarem seus termos. Assim sendo, em uma pesquisa de natureza qualitativa se utiliza o termo ‘achado’ mas não resultado já que esse pertence à tradição quantitativa positivista. Essa competição constitui erro grave já que as duas naturezas de pesquisa são complementares. A quantitativa é fundamental na epidemiologia tanto quanto a qualitativa na sintomatologia entre tantos outros exemplos. E por conta dessa rincha termos quantitativos importantes como amostra e variável são negligenciados.  Uma variável descritivaque possa colaborar para a compreensão de um fenômeno é fundamental. Sabe-se que variáveis como gênero, faixa-etária e cultura são importantes. O que é patológico em uma faixa-etária ou cultura não o é em outra. Nas variáveis sobre a depressão, por exemplo, sabe-se que nas classes mais baixas e nos países em desenvolvimento a sintomatologia depressiva está vinculada basicamente a aspectos físicos. As hipóteses também são vistas, no meio fenomenológico, com desconfiança, pois, em uma visão idealista, alguns pesquisadores acreditam que podem chegar às essências husserlianas sem nenhuma ideia preconcebida em um suposto estado neutro. A hipótese pode ao contrário ser um indício da familiaridade do pesquisador com o mundo a partir da experiência. Outras ferramentas úteis são os trechos de falas de pacientes que podem ser comparadas como também vinhetas. O fundamental é que não se esqueça de destacar a busca do significado.

CAMPOS, E. B. V.; COELHO JR. N. E. O conceito de alucinação em Merleau-Ponty: aspectos clínicos e psicopatológicos. Ver. Latinoam. Psicopat. Fund., V, 2, 13-27. 2002.

            Maurice de Merleau-Ponty em sua obra Fenomenologia da Percepçãofaz uma antológica análise do ato perceptivo a partir da psicologia e da psiquiatria com um intuito epistemológico. Descreve o ato perceptivo como uma experiência corporal pré-reflexiva.  Utiliza em sua análise o “motivo” como categoria que explica o sentido da percepção em oposição a uma explicação causal. Assim sendo, o sentido de uma percepção é a expressão da compreensão de uma situação. O motivo é o solo da experiência pré-reflexiva.

Temporalidade e causalidade são desdobramentos totalmente, já espacialidade, embora o artigo não trate disso se for considerado um desdobramento no mesmo sentido que as outras dimensões me parece idealismo, a não ser que esteja, como em kant, com um sentido epistemológico.
“pode-se dizer que a alucinação diz respeito a uma desarticulação da comunhão intersubjetiva pela fixação em uma única perspectiva. Criando um espaço de paisagem que será reconhecido como uma manifestação exterior por intermédio de uma conduta despersonalizada do corpo fenomenal”

            Para a psicologia e psiquiatrias do século XIX a alucinação é uma percepção sem objeto. Seria uma perturbação psicossensorial que projeta fenômenos subjetivos no campo objetivo caracterizada por uma crença errônea na existência de objeto(s), e espacialidade irreal. O que caracteriza uma epistemologia objetiva. O que é conveniente a pretensão acadêmica de previsão e controle. E é Freud o primeiro a criticar tal situação. Oferecendo o conceito de realidade psíquica. A teorização metapsicológica de Freud entende a alucinação em um primeiro momento como satisfação alucinatória do desejo com base nas noções de vivência de satisfação e prova de realidade. Nesse modelo há um investimento pulsional regressivodo sistema pré-consciente que burla as provas da realidade. A partir do conceito de narcisismo Freud reformula a ideia de alucinação como recusa (denegação) da realidade. Neste segundo modelo uma percepção angustiante (cujo protótipo é a castração da mãe) não é reconhecida enquanto percepto e o ego cede ao id em detrimento da realidade. O que constitui a alucinação negativa.Contudo, se a contribuição freudiana abre espaço para a configuração de sentidos, atualização do material simbólico, na teoria, há um uma explicação de fundo causal e energético no modo de um modelo dinâmico universal. Que leva a etiologia dos sintomas e do quadro psicopatológico sem levar em consideração a experiência individual é como se houvesse uma ambiguidade entre os achados práticos e a teoria psicanalítica.

            Já para Merleau-Ponty baseado na noção de intencionalidade do corpo fenomenal. Camada do ser imanente à realidade.A consciência reflexiva é precedida e significada por um ser primordial e inacabado que é incognoscível por ser a própria condição de cognoscibilidade. O ser é potencialidade de experiências possíveis. A percepção é experiência motivada, mas pré-pessoal. Pois, eu e mundo, sujeito e objeto se atualizam constantemente em uma comunhão ou coexistência que vai além da dicotomia tradicional. O conceito que sustenta essa formulação é o de intencionalidade. A sensação é intencional e transcende o corpo psicofísico. Essa intencionalidade operante do ato perceptivo é inacabada e parcial, fugindo assim ao controle e previsibilidade. O ser-no-mundo é a convergência de espaço, sentido e esquema corporal que se expressa na intencionalidade do ato perceptivo. Importante destacar também que o ato perceptivo é também prospectivo e retrospectivo o que da conta da dimensão temporal. Assim sendo, temporalidade e espacialidade e também causalidade são desdobramentos da intencionalidade dos corpos fenomenais.

            Diferentemente do realismo ingênuo que associava a alucinação à percepção sem objeto Merleau-Ponty entende que o ser ao alucinar sabe que o conteúdo alucinatório é distinto dos conteúdos validados objetivamente no mundo. Contudo, isso não desmerece a alucinação enquanto fenômeno psíquico relevante. Já que ela é um fenômeno expressivo do ser que possui seus sentidos. Outra contribuição do autor ao estudo da alucinação é que o arco intencional ou corpo fenomenal em sua intencionalidadese expressa pela alucinação, o corpo próprio e não só o sentido, sendo assim a alucinação não é só simbólica. Mas manifestação corpórea.

Embora a psicologia não fale danostalgia, das várias nostalgias, como a nostalgie-mal dupays ou a nostalgia do exilado político, ela constitui fenômeno essencial da existência, refere-se a perda do que nos é importante embora volte-se ao passado a nostalgia possui uma possibilidade, ainda que pequena, de comunhão com o futuro, na medida em que (as vezes de modo impreciso, fantasioso, delirante) tenta retomar a um passado inexistente ebom podendo fazer desse tempo mítico  um propulsor para o futuro (em uma espécie de saudade dofuturo).

 

MINKOWISKI, E. Breves reflexões a respeito do sofrimento: aspectos páticos da existência. In: Revista Latinoamericana de psicopatologia fundamental. Vol III – n-04 – dezembro de 2000, p. 156-164.

O sofrimento é parte inerente à vida. Embora raro é possível que alguém atravesse a vida sem doença, mas não sem sofrer. E se alguém pudesse fazê-lo não lhe seria conveniente. Como diz Balzac “aqueles que muito sofrem viveram muito”, e o sofrimento faz sofrer. A partir do sofrimento o homem depara-se com os dilemas que a existência coloca diante de si e fica diante do problema do sentido da vida. Outra característica do sofrimento é suanão mensurabilidade. Não se pode dizer que diante do problema do sentido da vida o sofrimento de João foi maior que o de Maria, ou prever, qual dos dois acabará mais rápido.

Ao contrário da dor que é um fenômeno indicador de desequilíbrio, do qual podemos nos referir como “mal”, o sofrimento não é desequilíbrio, ele é parte da vida. Nesse sentido a existência humana se afasta do devir biológico. É curioso destacar que o sofrimento não possui antônimos. A alegria tem a tristeza como oposto, o bom humor o mau humor etc. Mas o sofrimento não, é como se ele não fosse adjetivável por ser parte “normalmente” da vida.

            A angústia ou ansiedade é um estado afetivo que se encontra diante das reviravoltas da vida. Fenômeno por excelência pático a angústia não é patológico, ao menos em suas origens. Em termos gerais seria melhor usar alterações no lugar de transtornos, especificamente no caso da angústia isso seria o mais adequado. Pois a distinção entre normal e patológico é muito sutil. E a angústia é parte tão importante da vida que Kierkgaard escreveu: “ser passível desse mal nos coloca acima do animal, progresso que nos diferencia mais particularmente que a postura vertical da caminhada”.

CURIOSIDADE: Essa é a primeira vez que vejo, fora da história da psicanálise, uma referência a Pierre Janet, na certa, devido Minkowski ser francês franco-polonês). Cita=se a “teoria da psicastenia”.

MINKOWISKI, E. A perda do contato vital com a realidade e suas aplicações em psicopatologia.In: Revista Latinoamerica de psicopatologia fundamental. Vol VII – n-02 – junho de 2004, p.130-146.

            Kraepelin havia unido à demência precoce formas clínicas como catatonia, hebefrenia e demência paranoide. Essa síntese tornava o quadro clínico geral e impreciso, com sintomas constantemente intercambiáveis. Esse impasse ocorre devido a casualidade e sintomatologia está associada a déficete intelectual, o que permanece nas formulações de outros psiquiatras como Chaslin e a discordância, Stranskyataxia intrapsíquica, Urstein e a desarmonia intrapsíquica, o próprio Kraepelin e perda da unidade interiorClaude e Levy-Valensi e dissociação e Bleuler e a esquizofrenia. Todos esses autores propõem uma noção que em maior ou menor grau referencia o quadro clínico ao declínio cognitivo. Na contramão disso propomos a noção de perda do contato vital coma realidade. A noção de Bleuler com seu destaque para a afetividade e volições do doente foi o que mais nos influenciou, mas não seguimos totalmente por dar uma ênfase aos aspectos cognitivistas com bases orgânicas em detrimento da perda do contato vital com a realidade (autismo). O que ocorreria com o ser seria uma perda de contato com o ambiente que é sinônimo de acontecimento, não de espaço. Não há um prejuízo intelectual mas um descompaço com o devir ambiente. A influência de Bergson também foi grande.

PEREIRA, M. E. C. A perda do contato vital com a realidade na esquizofrenia, segundo EugèneMinkowski. In: Revista Latino Americana de psicopatologia fundamental. Vol VII – n-2 – junho de 2004, p. 125-129.

            Minkowski foi muito influenciado por Bleuler de quem foi assistente. Marcado por Husserl, Heidegger e prncipalmenteBergson. Teve uma interlocução com Binswanger com quem em 25 de novembro de 1922 participa da 63 jornada científica da sociedade suíça de psiquiatria em data que marcaria a fundação da psicopatologia fenomenológica. Cria o grupo evolução psiquiátrica, do qual fariam partes importantes psiquiátricas de seu tempo, entre eles Lacan. Promoveu a Daseinanalise deBinswanger na França.

            Com seu método fenômeno-estrutural recusava a psicopatologia que tivesse como fundamento uma psicologia das faculdades mentais. O processo psíquico seria tão complexo que não permitiria compartimentações em memória, pensamento, afetividade etc. Para ele a psicopatologia constitui uma psicologia do patológico e não uma patologia do psicológico. Desse modo aborda a esquizofrenia em seu sentido existencial e não tendo como meta uma sintomatologia.

“Assim, pela noção de perda de contato vital com a realidade Minkowski entende demonstrar que a perturbação esquizofrênica baseia-se na ruptura radical com o mundo humano, com o laço social. O sujeito exclui-se à abertura dialética com o outro, mergulhando em uma vivência de absurdo e de sem-sentido que impõe uma reconstrução forçada e artificial do sentido de sua existência, de seu corpo e de seu estar-no-mundo.”

MOREIRA, V. A contribuição de Jaspers, Binswanger, Boss e Tatossian para a psicopatologia fenomenológica. Revista da Abordagem Gestáltica – XVII (2): 172-184, jul-dez, 2011.

            Com a publicação de Psicoptologia Geral em 1913 Jaspers desenvolvia a proposta de dar autonomia à psicopatologia em relação à psiquiatria. Integrando o modelo causalist-explicativo das ciências naturais ao histórico compreensivo das ciências humanas. Pra tanto se valia do método fenomenológico. Que tinha como foco a experiência do outro no sentido de garantir cientificidade à experiência subjetiva. O grande mérito de Jaspers foi o de, a partir do primeiro Husserl, desenvolver uma psicopatologia autônoma que descrevesse os fenômenos psíquicos.

            Inicialmente adepto do movimento psicanalítico Binswanger o abandona após aprofundar seus estudos na fenomenologia de Husser e na ontologia de Heidegger. Ao contrário da psicanálise, de origem clínica, Binswanger desenvolve seus estudos fenomenológicos com um enfoque epistemológico. Seguiu o caminho de Jaspersna investigação da diferença entre relações de causalidade e de compreensão e propôs uma ontologia para superar essa dicotomia. Ao contrário de Jaspers, Binswanger vai além da descrição das vivências e dos encadeamentos que lavam à doenças, Binswanger se vale dessa descrição mas relaciona-a às estruturas existenciais transcendentais heideggerianas: temporalidade, espacialidade, o ser-com-o-outro, disposição, compreensão, cuidado, queda e ser-para-a-morte. Chamada de análise existencial ou análise antropologicaa-fenomenológica a contribuição de Binswanger foi tão grande que ficou conhecido como pai da psicopatologia fenomenológica.

            O psiquiatra Boss foi analisado por Freud, trabalhou com Bleuler e foi sócio de Jung. Depois de uma experiência de tédio procura autores que tratem do tempo e encontra Heidegger. De quem vira amigo e se corresponde por 30 anos, além de promover seminários do filósofo para um público de psiquiatras, o que seria publicado no livro “Seminários de Zollikon”. Boss priorizava o existencial heideggeriano ser-com-o-outro a ponto de dizer que o homem nunca está de todo sozinho, pois até a indiferença é uma relação existencial para com o outro, ainda que em potencial.

 

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