Cícero

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Cícero, seguindo um antigo ensinamento estóico, afirma que todo extremo é prejudicial. Levando em consideração os prejuízos emocionais que nossa relação com o tempo causa em tantas pessoas pode-se dizer que temos uma comprovação civilizatória de tal afirmação na contemporaneidade. O filósofo romano Marco Túlio Cícero (106-43 a.C) no livro “Saber envelhecer” utiliza os princípios do estoicismo para defender que cada idade possui suas próprias vantagens e que saber aproveitar cada momento da vida, seguindo o percurso natural da vida é o modo mais sábio de viver. E que tanto querer ser mais velho na juventude, como mais novo na velhice são atitudes extremas que vão contra a natureza e só podem trazer sofrimento.

 

“Acaso os adolescentes deveriam lamentar a infância e depois, tendo amadurecido, chorar a adolescência? A vida segue um curso preciso e a natureza dota cada idade de suas qualidades próprias. Por isso, a fraqueza das crianças, o ímpeto dos jovens, a seriedade dos adultos, a maturidade da velhice são coisas naturais que devemos apreciar cada uma em seu tempo.”  (CÍCERO, 2010, p.26)

 

 Em um extremo temos crianças e adolescentes que esqueceram ou rejeitam o brincar em detrimento das experiências precoces. No outro extremo temos adultos e velhos que se “montam” diariamente para “ostentar” * uma eterna juventude (ao menos estética). Em ambos os casos há uma insatisfação com a condição presente e um esforço de se projetar para o passado ou para o futuro no intuito de sanar uma frustração do momento presente, que de acordo com Cícero é impossível de ser sanada, pois a natureza possui um ritmo próprio, e como prega o estoicismo de Cícero a vida sábia é aquela que se harmoniza ao ritmo da natureza. Sobre tal insensatez de ir de encontro a natureza Cícero escreve: “Todos os homens desejam avançar a velhice, mas ao ficarem velhos se lamentam. Eis aí a conseqüência da estupidez” (CÍCERO, 2010, p.7).

 

 

*             O termo montar vem da cultura travesti e se refere a se vestir (travestir) como um personagem que se caracteriza, via de regra, pela beleza exuberante e ostentar é um termo típico do funk carioca, mas hoje popularizado em todo o Brasil que se refere  a se vestir de tal modo a chamar atenção por apetrechos que indiquem poder (notadamente financeiro).

Cícero desenvolve o texto em formato de diálogo como era já tradição secular desde Platão e Aristóteles. Apresenta os argumentos contra a velhice e vai contra-argumentando. Primeiro analisa o argumento que diz que a velhice nos afasta da vida ativa. Então ele questiona qual vida? A natureza, argumenta, dota cada idade de vidas próprias, com seus próprios ritmos de atividade. Questiona o mito de que o velho tem problemas de memória: “A memória declina se não a cultivarmos ou se carecemos de vivacidade de espírito. Os velhos sempre se lembram daquilo que interessa: promessas, identidade dos seus credores e devedores, etc”

             Segundo argumento: a velhice não tem forças; sim, mas ninguém exige dela ser forte! Mesmo ao suposto enfraquecimento da memória, Cícero tem resposta espantosa: diz ele que jamais viu um velho esquecer-se do lugar onde escondeu seu dinheiro. Ainda dentro deste item, diz-se que os velhos são rabugentos: difíceis. Nada disso. São rabugentos porque sempre o foram, desde a juventude; os outros é que não se aperceberam disso.

 Contudo, os contra-argumentos principais de Cícero contra a suposta falta de força da velhice são aqueles que se prolongaram ao longo de todo o texto. O da proporcionalidade como também o da contextualização. O primeiro diz que um velho pode até ser mais fraco que um jovem, mas esse também o será mais que outro jovem mais atlético, e mesmo o jovem mais atlético será mais fraco que ele próprio no decorrer  do tempo conforme esteja mais ou menos sadio. Uma doença poderá deixá-lo mais fraco que um velho. Neste ponto o argumento da proporcionalidade se liga ao da contextualização, pois, muitos jovens por mais que fortes por natureza são sedentários por hábito, e em conseqüência muitas vezes frágeis. Muitos são usuários de substâncias  (o que se mostra super atual com a epidemia de crack que presenciamos atualmente) que os torna mais frágeis que um velho sexagenário.

“CATÃO: Farei o melhor possível, Lélio. Com freqüência escutei os lamentos das pessoas de minha idade. (Cada qual com seu igual, diz um velho provérbio!) Assim ouvi Gaio Salinator e Espúrio Albino, dois antigos cônsules de minha geração, queixarem-se amargamente de estarem privados dos prazeres sem os quais, supunham, a vida nada mais vale; ou, ainda, de serem agora negligenciados pelos mesmos que os honravam outrora. Escutando-os, eu tinha a impressão de que se enganavam de culpado. Será de fato a idade que devemos incriminar? Nesse caso, eu também deveria padecer dos mesmos inconvenientes, e, comigo, todas as pessoas idosas. Ora, sei de muitos que vivem sua velhice sem jeremiadas, aceitam alegremente estar liberados da carne e são respeitados pelos que os cercam. É portanto ao caráter de cada um, e não à velhice propriamente, que devemos imputar todas essas lamentações. Os velhos inteligentes, agradáveis e divertidos suportam facilmente a velhice, ao passo que a acrimônia, o temperamento triste e a rabugice são deploráveis em qualquer idade.” (CÍCERO, 2010, p. 32)

O terceiro argumento diz que a velhice nos priva dos melhores prazeres. Cícero vai afirmar que os melhores prazeres, entretanto, mudam com a idade. Um velho terá imenso prazer nas antigas amizades, no bom vinho, no paladar pausado, na reflexão, na arte e na cultura e os desfrutará com muito mais volúpia que o jovem, pois tem mais vagares e compreensão das coisas. Além disso -vejam o bom-humor de Cícero – não se sofre por ser privado daquilo de que não se tem saudades.

              O quarto argumento principal que comumente se utiliza contra a velhice é a afirmação de que  nos aproxima da morte. Certo, se pensarmos apenas na cronologia; entretanto, os mais propensos a morrer cedo são os jovens, por sua afoiteza e pelo caráter devastador das doenças juvenis; ademais, não há razão para temer a morte: se houver uma vida futura post mortem, ótimo; se não houver, nunca o saberemos, aut nullus est. O autor crê na imortalidade da alma, mas prefere ficar em sua argumentação terrena. Novamente a argumentação de Cícero se mostra de uma atualidade assombrosa, basta ver que os últimos indicadores do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística indicam que os maiores índices de mortalidade estão entre os jovens.

Cícero conclui defendendo que os velhos não devem nem se apegar nem renunciar sem razão à vida. Para isso é preciso ser sábio e a sabedoria é mais propícia naturalmente na velhice. Em suma, Cícero corporifica sua filosofia pregando os princípios do estoicismo, como aceitação da natureza, ao tema da velhice e assim contribui para aprendermos a envelhecer.

 

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